Balzac - José Antônio Gama de Souza - "Nascido na cidade mineira de Leopoldina em 09/08/1952, José Antônio Gama de Souza, filho de operários, passou sua infância e adolescência na mesma cidade, onde foi operário e auxiliar de escritório até 1969, e completou o secundário, quando foi para Belo Horizonte estudar para concorrer ao vestibular de arquitetura, seu sonho na época.

Lá estudou e trabalhou como escriturário, porém teve de abrir mão do sonho, em função do fechamento da fábrica onde os pais trabalhavam. Primogênito de cinco irmãos, sem recursos para continuar os estudos, teve de retornar para ajudar no orçamento doméstico. Trabalhou em empresas comerciais e de prestação de serviços e com base na sua formação em administração e planejamento fiscal, em 1990 montou seu próprio escritório de consultoria empresarial.

Desde a adolescência foi amante da literatura e da poesia, admirador de João de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Honoré de Balzac. Passou a gostar de escrever poemas para as namoradas reais e musas virtuais, e músico amador, começou também a tocar violão ainda adolescente, o que lhe propiciou compor suas próprias canções. Chegou a participar de vários festivais de música no período em que esteve em BH, em 1970, época turbulenta cultural e politicamente, quando substituiu as letras românticas pelas de protesto, e onde escreveu uma peça teatral, A VACILADA - que foi encenada no âmbito estudantil e que apesar de censurada, foi gravada e representou o Brasil em congresso de assistência social no Chile.

Lutou democraticamente contra o regime da ditadura militar e por este motivo foi preso duas vezes, sofrendo todas as amarguras impostas aos assim chamados “subversivos“. Mas o gosto pela poesia permaneceu e pressionado pela família e pelos amigos, abriu o baú de poemas, pensamentos e crônicas, escritos durante toda sua vida, guardados em fundos de gavetas e absolutamente inéditos. Alguns integraram seu livro “Vontade de Ser” editado em 2001. Adotou na Internet o nickname de Balzac.

Teve seu poema “Poesia Realista Romântica Concretista” incluído no livro “Seleções de poetas notívagos” editado em 2002 e o poema “Vida” no livro Ensaio Poético editado pela AVBL Academia Virtual Brasileira de Letras em 2003. É diplomado pela Academia de Letras de Barretos por sua participação em concurso com o poema “ Tenho culpa; tenho medo!”. Seus poemas são diariamente lidos em programa da Rádio Cidade – FM de Leopoldina, MG e estão publicados em diversos sites na Net.

Apegado à sua terra natal onde tem profundas raízes, hoje aposentado e ambientalista amador, dedica-se à literatura, à ecologia, ao modo simples de vida, à família e às boas relações humanas."

Outros links em que os amigos podem me ler:

ODE À AMIZADE

Sou de um amor diferente
Dócil escravo, fácil presa
Um sentimento consciente
De muito valor e nobreza

Não permite preconceitos
Não envolve distinções
Mulheres e homens aceitos
Defeitos, virtudes, razões

Há, do ancião à criança
Neste modo de amar, profundo
Muita lição e esperança
De melhorar nosso mundo

Tem este amor a decência
De acatar, com harmonia
O prazer da convivência
No pesar e na alegria

Como exprimir tal valor
Não ser, nos versos, prolixo
Sintetizar tanto amor
Como Deus no crucifixo?

Ser lacônico, entretanto
Sem desprezar a beleza
Sem ferir tanto encanto
Sem perder tal riqueza?

Este poder, já vos digo
Que tem tal dignidade
É a bênção do amigo
O amor da amizade!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



QUERO

Não quero falar por metáforas
Não quero falar por parábolas
Não quero falar por sofismas
Não quero falar por fábulas

Quero falar com a língua
E que ela seja muito mais
Do que futilmente, palavras

Quero falar com palavras
E que elas sejam muito mais
Do que simplesmente a língua

Não quero saber de eufemismos
Não quero saber de semânticas
Não quero saber de modismos
Não quero saber de retóricas

Quero a poesia clara
Dos teus olhos e da alma
E do amor sem complexo

Quero penetrar no teu âmago
Com franqueza; e com calma
Absorver o teu sexo

Não quero ser moderado
Não quero ser literato
Não quero ser complicado
Não quero ser emblemático

Quero me intimidar
Quero me enfraquecer
Quero me subordinar
Quero me enternecer

Quero falar com o tato
Quero saber com o ato
Quero ser mais com o fato
De escancaradamente amar...

Com a língua de novo
Com a língua do povo
Com palavras plenas
Ruidosas, amenas...

Render-me, é o que espero
E sem culpa, dizer:
Amo-te amor, eu te
Quero!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



POESIA REALISTA

ROMÂNTICA CONCRETISTA

Pode em sua percepção
Simultâneamente ser o poeta
Realista romântico concretista?

Estar ébrio e ávido sem estar bêbado?
Ser mágico e clássico embora quântico?
Ser rústico ou áulico sem ser ímpio?
Ouvir cânticos, beber dos cálices sem ser cínico?

Sim, ser cálido e tácito sem ser cômico
Gozar das dádivas sem dúvida ou dívida
E não ver no júbilo fálico apenas o físico

Não estar bélico, ser ético e épico
Não gostar do hálito gélido do óbito
Ter por hábito, o método e o máximo
Não o mórbido, o típico ou o símbolo

Ter ótica prática e límpida
Amar a lágrima, a música e a réplica
Fugir do débito, da cólera e do mérito
E desejar o líquido, o fúlgido e o ápice

Compreender o náufrago, o tímido e o trôpego
E não ser vítima, nem ácido e nem último

No púlpito, ser príncipe e público
Não um rábula pérfido e ríspido
Ser lúcido, lídimo e sólido
Não sádico, técnico e mínimo

Ao assumir de súbito, uma tônica ou outra tática,
É preciso ser único, vívido e lépido
Ter crédito, ser híbrido e plácido

E assim, não néscio, não kármico e nem céptico
Ser lúdico, lírico e cândido

Porque se o universo é lógico
As mulheres e a vida são cúmplices
Do amor, que é pródigo!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



MORAL

Sei
Do clássico lirismo do nascer
Da lúdica sensação do viver
Da mítica esperança do saber
Do mágico sentido do morrer

Então...

Cai
O pranto dos flagelados sobre minha cabeça
O sangue dos mutilados sobre minha noção
O clamor dos condenados sobre minha justiça
O suplício dos inocentes sobre minha visão

Sai
De meu coração uma sofrida ira
De minha razão uma palavra torpe
De meu conceito uma teoria clara
De minha justiça uma solene culpa.

Vai
Vagando pelas brumas aquilo que penso
Pesando sobre os ombros aquilo que tenho
Torturando meus momentos aquilo que sinto
Perturbando meus sentidos aquilo que tento

Porque...

Mói
O questionador crítico a mentira
A vítima costumeira o erro
O estudioso prático o acerto
A mente curiosa a verdade

Rói
Toda sutileza o cálculo
Toda lucidez a inépcia
Toda temperança o ímpeto
Toda sensatez a inércia

Assim...

Rui
O preceito máximo do que é legal
A primícia básica do que é virtual
O conceito léxico do que é mortal
A ciência lógica do que é MORAL!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SONETO PARA CAMILA
(Pelos seus quinze anos - De seu padrinho: José Antônio Gama de Souza-Balzac)

De tua infância lúdica e importante,
Ora te despedes encantada e formosa;
Quando vês abrir-se a ti, auspiciosa,
Uma nova vida venturosa e vibrante.

Então que seja, assim esta; triunfante!
Que seja linda, produtiva, harmoniosa,
E quando tu a pensares conflituosa,
A esperança sempre a torne confiante.

Hoje no coração só tens brandura...
Botão de rosa que se abre docemente,
Pulsante com esta alegria tão pura.

Ama sempre, vive sempre intensamente;
Espalha neste mundo esta ternura,
De ser mulher soberana, plenamente!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



RIA

Ria por mim
Ria sempre

Ria de mim
Ria contente

Ria sem mim
Ria comigo

Ria pra mim
Ria consigo

Ria sim
Ria demais...

Mas por si não chore
E por mim não chore

Jamais !

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SEMPRE

Sempre haverá um alguém que eu possa alegrar
Sempre haverá a alegria que eu queira cantar

Sempre haverá uma paixão que eu possa viver
Sempre haverá a vida que eu queira saber

Sempre haverá um amigo que eu possa abraçar
Sempre haverá o abraço que eu queira esperar

Sempre haverá uma saudade que eu possa sentir
Sempre haverá o sentimento que eu queira traduzir

Sempre haverá uma criança que eu possa acariciar
Sempre haverá a carícia que eu queira ganhar

Sempre haverá uma flor que me possa enternecer
Sempre haverá a ternura que eu queira ter

Sempre haverá uma ilusão que eu possa sonhar
Sempre haverá o sonho que eu queira realizar

Sempre haverá uma tristeza que eu possa remir
Sempre haverá a remissão que eu queira permitir

Sempre haverá um carente que eu possa ajudar
Sempre haverá a ajuda que eu queira doar

Sempre haverá uma beleza que eu possa ver
Sempre haverá a visão que eu queira merecer

Sempre haverá uma sorte que eu possa jogar
Sempre haverá o jogo que eu queira mostrar

Sempre haverá uma dor que me possa afligir
Sempre haverá a aflição que eu queira exprimir

Sempre haverá uma dúvida que me possa atormentar
Sempre haverá o tormento que eu queira cultivar

Sempre haverá um medo que eu possa combater
Sempre haverá o combate que eu queira vencer

Sempre haverá uma face que eu possa beijar
Sempre haverá o beijo que eu queira dar

Sempre haverá uma verdade que me possa ferir
Sempre haverá a ferida que eu queira omitir

Sempre haverá um ser que eu possa amar
Sempre haverá o amor que eu queira ofertar

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



EM QUALQUER TEMPO

Escrevo como quem sangra
Sangro como quem ama
Amo como quem morre

Desejo conter em meus versos
A melancolia das tardes de outono
A suavidade das noites primaveris
O romantismo dos dias de inverno
Cujas noites são as mais belas

Nem sempre sou
Como as manhãs de verão
Claras e otimistas
Alegres e vitais
E nem conflituoso sempre
Como às vezes suas noites e tardes

Mas prefiro ser luz que sombra
Embora ame o mistério da noite

Valorizo o brilho do dia
E volúvel, mudo de gosto
Como muda a vida
Como muda o amor
Como muda até a dor
Que busco traduzir

E assim passionalmente
Em qualquer tempo ou momento:

Sangro como quem escreve
Amo como quem sangra
Morro como quem ama!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



REALIZAÇÃO

Sei que também muito me amas
E que por mim também tens paixão
Sei que este amor parece impossível
Mas a atração é grande, inevitável

E embora nos reprimam os grilhões
Que à nossa consciência ora clamam
Este desejo que é real e tão latente
Realização de nós espera e exige

Marquemos então nossos encontros
Para todas as noites em nossos sonhos
E seremos acobertados pelo álibi do sono
Que nos protegerá, cúmplice de nossos desejos

Teremos por teto assim, o firmamento
E desfrutaremos enfim, do nosso amor
Correremos em delírio pelos campos soniais
De mãos dadas como inocentes crianças

Fortemente a tomarei em meus braços
Beijarei tua boca com sofreguidão e carinho
Ternamente a deitarei na relva orvalhada
Que iluminada pelos astros será nossa alcova

Tirarei tuas vestes e a contemplarei nua
E me deleitarei com tua feminina beleza
Sussurrarei em teus ouvidos anseios ardorosos
E minhas mãos percorrerão todo teu corpo

Passarei meus dedos pelos teus cabelos
E com eles tocarei tuas partes sensuais
Olharei em teus olhos e a ti confessarei:
Direi do amor que de mim tanto queres

Beijarei teus seios com delicadeza
E neles farei voluptuosas carícias
Enquanto tu me prepararás, cúmplice
Com os teus quentes e sequiosos beijos

E por não conseguir mais nos conter
Entrarei em ti, e já então um só
Nossos corpos lascivos e indecorosos
No ato do pleno amar se realizarão

Ficaremos depois, corpos e almas
Satisfeitos, em concha e olhando o céu
Desejando que a noite não termine
E que demore bastante o despertar.

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



FLOR EXILADA

Se em teu encanto sem reservas cativas
Ungindo francamente a intenção do amor
Eis que prostrado encanta-se o amante
Líbero escravo, ávido navegante
Iludido nos grilhões, pobre sonhador...

Que doce idílio em teu canto ativas?
Neste mar de prazer; que sereia és tu?
Que ao amor convertes habilmente
E à paixão seduzes, atilada, irresistível
O incauto ser que se entrega nu - a ti

Na delicada beleza espontânea e viva
A sensualidade que à mulher agrega valor
Anima e fascina, com alegre sedução

A quem, de ti, é modesto admirador...
A quem, de ti, não é merecedor!

A ti, sublime e exilada flor mineira
Dá-se, enamorado o poeta em rendição
Pretenso lírico farol de tua solidão!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



CERTEZAS

Fora eu amante correspondido
Seria do amor, um navegador audaz
Fora eu suplicante, atendido
Seria da paixão, um mestre capaz

E mergulharia meus beijos
No mar daquela delicada cútis
E seria como se beijasse a lua

E entregaria meus desejos
Ao sabor daquela almejada púbis
E seria como quem flutua

Nossos corpos envolvidos
Como lua e mar, refletidos
Vibrariam molhados de suor e gozo

E ela infinitamente me amaria...

Ah...se o amor desse certezas...

Sei que neste instante
O meu amor é eterno
E do amor não há retornos

Mas o amor não dá
E no amor não há...
Certezas.

Leopoldina, MG.



UM GRANDE AMOR, SIMPLESMENTE!


Verga-se minhalma amante
Perante tua vontade de amor
Não é santa, é meliante
Da vida, insana, sofrida
Amarga, só, dolorida
Embriagada de dor

Flor da vivência ébria
Fruto da humana sarjeta
Madura, infante, ninfeta...
Marcada, inocente, sóbria
Pura, rude, experiente
Lúcida, suave e demente...

Que tem para oferecer-te
Esta dúbia criatura?...
Do pintor, esboço simples
Do escultor, apenas barro
Do músico, ainda partitura
Qual vinho ainda no jarro

Talvez nada de mal
Talvez nenhuma emoção
Talvez apenas luxúria
Quem sabe alguma paixão!

Algo profundo e belo
Extraia destas entranhas
Algo que temes e queres
Que desconheces e sonhas

Acalma esta alma frágil
Este desejo latente
Quem sabe poderá ofertar-te
Um grande amor, simplesmente!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



QUE FOI?

Que foi?

Que foi que fiz?
Que foi que disse?
Que foi que quis?

Que foi que não fiz?
Que foi que não disse?
Que foi que não quis?

Que foi que fez?
Que foi que disse?
Que foi que quis?

Que foi que não fez?
Que foi que não disse?
Que foi que não quis?

Que foi?

Foi algo que fui?
Foi algo que não fui?
Foi algo que foi?
Foi algo que não foi?

Ou foi o amor?
Que se foi...

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SUSPIRO DE AMOR

Há que se aprender a amar
Pois há na renúncia e na espera
Na dádiva, no controle e na entrega
Um prêmio raro, real quimera
Que se ganha sempre no leito
Quando se tem a amante nua
Que de leve, quase flutua
Descansando em nosso peito
Porque não há glória maior para um homem
Que o profundo suspiro de uma mulher
Emanado pelo prazer do pleno amor
Satisfeito!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



UMA TARDE

Quisera eu uma tarde
Que fora linda afinal
Chupando jabuticabas do pé
Aquele do meu quintal...
Meteria os pés na areia
Do leito daquele riacho
Deitaria-me nas águas
Sentindo-as correrem por baixo
Comeria então um cacho
Daquela bananinha ouro
Pisaria no estrume
Correria daquele touro
Quisera eu nesta tarde
Sentado sob a goiabeira
Pensar em mim e na vida
Como é tão passageira!

Quisera eu numa tarde
Ficar assim bem à toa
Tomando um café coado
Comendo um pedaço de broa
Lançaria pedrinhas no espaço
Nadaria totalmente nu
Jogaria-me por debaixo
Daquela bica de bambu
Comeria torresmo com angu
Tomaria um gole de pinga
Cantaria moda de viola
Beberia água de moringa
Quisera eu nesta tarde
À sombra de uma laranjeira
Pensar em tudo e na vida
Como é tão passageira!

Quisera eu numa tarde
Ficar assim bem ao léu
Imaginando das nuvens
Figuras lúdicas no céu
Deitaria-me no colo
Do meu amor, sem demora
Beijaria-lhe os lábios
Ficaria assim... sem hora...
Comeria manga e amora
Sujaria-me com prazer
Rolaria pela grama
Aguardando o anoitecer
Quisera eu nesta tarde
Sentir-me sem eira nem beira
Pensar em nada, e nem na vida
Pois que é tão passageira!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



FRAÇÃO

Em cantos
Das Alterosas
Estão três quartos de mim

Enquanto
Na tarde chuvosa
Desta sexta-feira sem fim

O quarto que resta
Sofre
Na saudade dolorosa

No bar
Na tarde
À espera da noite

Só, fraco, triste
Este quarto

E depois
Só o quarto
Só, no quarto
Só um quarto!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SEU NAMORADO

Cantarei hoje uma canção bem diferente
Uma canção canora, franca e dedicada
A um alguém de uma sorte delicada
Quão delicado é o amor que ora sente

De que agruras, esta alma se ressente
Quais foram as pedras que encontrara na estrada
Que a inibem de antever a alvorada
De uma vida que ela agora não pressente?

Há de encontrar, eu creio sim, seu namorado
Há de viver, eu creio sim, um grande amor
Que a felicite, e seja enfim o seu amado

Que a realize, e que elimine a sua dor
Cantando sempre uma canção de seu agrado
Em qualquer dia, seja lá qual dia for!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



PÁSSARO CATIVO

Sou ave cantante solitária e infeliz,
presa em gaiola dourada e reluzente,
cantando melodia que parece, de contente,
dizer: foi este o destino que eu quis!

Pensar que canto e não morro por um triz,
por almejar a liberdade o sangue quente,
por saber que é por amor, mas diferente,
por saber que de amar sou aprendiz.

Faço assim deste cantar, meu alimento,
como absinto inspirador e embriagante,
que me liberta e faz voar meu pensamento.

Canto “alegre” a poesia que em mim dói,
ardor latente de um desejo delirante,
saudade eterna de um amor que ainda não foi!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



QUE JEITO?

Pensei em amar... igual!
Mas... eu não sou igual.

Pensei em amar... diferente!
Mas... eu não sou muito diferente...

Pensei em amar... eterno!
Mas... eu não sou eterno!

Pensei em amar ... moderno!
Mas... eu sou moderno?

Pensei em amar ... romantico!
Mas... eu não sou... ou sou romântico?

Pensei em amar... louco!
Mas eu não sou também tão louco!!!

Pensei em amar assim, assim...
Mas... eu não sou assim!

Pensei em amar... perdido!
Mas... é... sou meio perdido.

Pensei em amar... platônico!
Mas, nem sempre sou platônico.

Pensei em amar... inocente!
Mas, eu não sou definitivamente, inocente!

Pensei em amar como quem não quer nada...
Mas... eu quero tudo!

Pensei em amar com entrega total...
Mas... eu sou experiente!

Pensei, pensei, pensei ... e resolvi:
Amar, amar, amar... sem pensar!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SABES

Sabes que é de ti que falo
E de ti que me aflige a saudade
De ti é o vazio que me invade
E sabes que é por ti que calo

Sabes que é por querer preservar-te
Que recolho-me discreto e triste
Que finjo que o amor não existe
E sabes que é por muito amar-te

Sabes bem que por mais não fora
Que eu andara assim reprimido
A ti buscara resoluto, impávido...

E de teu seio todo o néctar sorvera
Saciando a sede do amor contido
Mas que sabes ser vívido e ávido!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



PROFETA

Creio amada,
Pelo amor sublimado
Se o sonhar-te
Fizera-me poeta
Creio agora
Pelo sonho consumado
Antes o amar-te
Fizera-me profeta!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



TENHO CULPA; TENHO MEDO!

Penso nas crianças esquálidas africanas
Nas crianças sem norte, nordestinas
Nos pais ignorantes, nas sinas
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso nas mulheres com suas pernas abertas
Com seus olhos abertos, suas bocas abertas
Com seus sentidos fechados
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso nos homens com suas contas cheias
Suas mentes vazias, seus sentidos tolhidos
Seus valores distorcidos
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso nos políticos com suas idéias dissimuladas
Incapazes, corruptos, disponíveis
Néscios, falsos, insensíveis
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso nos índios, nos negros, nos velhos, nos fracos
Espoliados, discriminados, desassistidos
Desrespeitados e esquecidos
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso nos jovens, pobres sem oportunidade e instrução
Ricos sem limites e sem atenção
Estudantes sem rumo, sem noção
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso no povo enganado e nos seus sonhos
Em sua passividade, em sua docilidade
Em sua ingênuidade
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso nos poetas, em seu sofrimento e decência
Em sua tristeza, em sua impotência
Em sua pureza, em sua inocência
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso nos sábios e em sua consciente importância
Em suas teorias inertes, em sua arrogância
Em sua ignorância
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso nos ricos e em sua egoística ambição
Em sua decadência, em sua desilusão
Em sua concupiscência
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso na fome dos sem-teto das marquises e da periferia
Em sua sede de justiça, em sua paralisia
Em sua exploração, em sua exclusão
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso nas mulheres não amadas, mal amadas
Nas sem voz e abandonadas
Sufocadas, humilhadas
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso nos homens sem trabalho, sem terra, desonrados
Em sua desintegridade, em sua indignidade
Em sua insalubridade
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso na humanidade e em sua idiossincrasia
Em suas crenças, preconceitos, doenças
Na pedofilia, na hipocrisia
Não tenho culpa; tenho medo!

Penso na sociedade e nos seus princípios rotos
Em sua moral dúbia, em seus mortos
Na atitude espúria, nos abortos
Eu tenho culpa; tenho medo!

Penso;
Não tenho culpa...
Penso;
Eu tenho culpa...
E tenho medo!
Então tenho culpa!
Então tenho medo!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



AMORES

Eu tive um amor
E este amor foi bom
Como todos os amores
Pena que foi dramático...
E terminou triste

Eu tive outro amor
E este amor foi bom
Como todos os amores
Pena que foi possessivo...
E terminou triste

Eu tive mais um amor
E este amor foi bom
Como todos os amores
Pena que foi fugaz...
E terminou triste

Eu tive ainda, aquele amor
E aquele amor foi bom
Como todos os amores
Pena que foi impossível....
E terminou triste

Eu tive muitos amores
E todos estes amores foram bons
Como todos os amores
Pena que foram tristes...
E terminaram.

Eu tive, enfim, um amor
E este amor foi bom
Como todos os amores
E além de tudo, um amor pleno
E havia nele muita alegria...

Pena que foi sonho!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



MEDITAÇÃO

Falo de minha incoerência
Fujo de minha indigência
Falo de minha inconsistência
Fujo de minha razão...

Perante a inocência, calo-me
Diante da existência, luto
Perante a insistência, exalto-me
Diante do mundo, escuto!

Falo de minha hipocrisia
Fujo de minha ironia
Falo de minha rebeldia
Fujo de minha solidão...

Perante a sintonia, calo-me
Diante da melancolia, paro
Perante a poesia, aquieto-me
Diante da paz, espero!

Falo de minha arrogância
Fujo de minha ganância
Falo de minha ignorância
Fujo de minha atração...

Perante a substância, calo-me
Diante da importância, fico
Perante a tolerância, quedo-me
Diante da infância, explico!

Falo de minha experiência
Fujo de minha impotência
Falo de minha consciência
Fujo de minha aflição...

Perante a ilusão, calo-me
Diante da emoção, cedo
Perante a paixão, sinto-me
Diante do amor, excedo!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



TUA MULHER

Sou aquela que espera
De homem, teu amor
De menino, teu carinho
De anjo, teu sexo...
E teu desejo de mulher

Sou aquela que almeja
De pai, tua proteção
De irmão, tua companhia
De filho, tua carência...
E tua atenção de mãe

Sou aquela que procura
De homem, teu carinho
De menino, teu sexo
De anjo, teu desejo...
E teu amor de mulher

Sou aquela que deseja
De pai, tua companhia
De irmão , tua carência
De filho, tua atenção...
E tua proteção de mãe

Sou aquela que implora
De homem, teu sexo
De menino, teu desejo
De anjo, teu amor...
E teu carinho de mulher

Sou aquela que inveja
De pai, tua carência
De irmão, tua atenção
De filho, tua proteção...
E tua companhia de mãe

Sou aquela que adora
De homem, teu desejo
De menino, teu amor
De anjo, teu carinho...
E teu sexo de mulher

Sou aquela que ama
De pai, tua atenção
De irmão, tua proteção
De filho, tua companhia
E tua carência de mãe

Sou aquela... tua mulher...
Que te espera e te almeja
Que te procura e te deseja
Que te implora e te inveja
Que te adora e te ama
Completamente!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



A UM AMOR IMPOSSÍVEL

Mais que um delírio inconseqüente
A ferir nobres e límpidos pensamentos
Revelo-te expressão de puros sentimentos
Inspiração máxima de lúdicas temperanças
Afiada espada de meu padecimento

Izabel, Elizabeth, Eliza Bela, Iza Bela...
Zangue-se com meu espírito presente
Açoite meus distantes detrimentos
Basta-te saber que são por ti isentos
E por teu lídimo amor, súditas esperanças
Lanceada alma de doce encantamento

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



VIDA

E se perdesse a eternidade
o tempo
Que aos meus olhos passa
No montanhês horizonte?

E se perdesse a maviosidade
o canto
Que meu sentido capta
Do pássaro cantante?

E se perdesse a velocidade
o vento
Que o meu rosto toca
Como acaricia o monte?

E se perdesse a passividade
o campo
Que meu corpo acolhe
Como se fosse amante?

Ainda assim, seriam
O tempo, o canto, o vento e o campo
Básicos atores
Na teatral moldura deste instante...

Em que a vida
Que inspira o amor
Maior que tudo
É sempre o mais importante!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



AMOR PROVADO

Sinto a noite atrás de mim
E o incômodo peso da razão
Sobre a mente torturada

Faço parte de algum mistério
Como se fora um elo perdido
Perdido, confuso e solitário.

Ouço então os marulhos
Sons sedutores da paixão...
Dizem não existir o amor
Apenas provas de amor

Preciso ser um pouco frívolo...

Quero um chapéu panamá
Uma camisa desabotoada
E uma calça de linho branca

Vou me embriagar de luar
Pois quero madrugar cantando
Com a sonância do meu violão

Quando o sol tocar meus pés
Nus e cobertos de areia
Há de me encontrar orvalhado
Com a roupa cheirando a mar
Ébrio e desavergonhado
Deitado sob aquela janela

Com o amor sonial provado
Declaradamente livre e apaixonado!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SÓS

Nós
Racionalmente sós
Intelectualmente sós
Ludicamente sós
Liricamente sós
Emocionalmente sós
Fisicamente sós
Egoisticamente sós
Impossivelmente sós...

Nós
Livres da exterioridade da mente
E da mundana embriaguez
Integrados universalmente...

É quando assim a lucidez
Torna-se perceptível
E a solidão impossível!

Nós
Então desatamos os nós
Então nos pensamos sós
E então encontramo-nos

Nus!
Sós,
Só nós!
Sós?

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



AS TREIS FRÔ DO MANACÁ


Uma veiz uma morena
Qui morava numa terra,lá...
Prantou um pé di fulô
Quera um pé di manacá

Agô, cuidô i isperô,
Pra quela pranta frorá
Pra matá anssim a vontadi
Di vortá pru seu lugá...

Custô, mas infim sucedeu
Brotô treis piquena frô
I dus óio intão da morena
Treis lagrima tamém rolô...

Uma lágrima i uma frô
Pra cada quar um sintido
Quim seu coração ficava
Quetim, anssim isprimido

Pras primêra o amô
Quela tem dentro du peito
Qui é grandi cumo quê
I ela dá di carqué jeito

Pras segunda a sordadi
Da terra i dus amigo
Quela qué di todo modo
Um dia inda tê consigo

Pras tercêra a isperança
I um sorriso intão brotô
Nu rosto daquela morena
Bunito qui nem a fulô

As três lágrima caiu
As três frô dispois murchô
I istercô aquela pranta
Qui incheu di tanta frô

I cumo as fulô, us sintido
Tamém anssim armentô
U amô i a sordadi
Mais a isperança, sinhô!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



DISTÂNCIA

Vade retro com teu bafo de fogo vil
Ignóbil dragão que meu sonho atormentas
Pois que de desesperanças cruéis e agourentas
És fétida projeção, avassaladora e servil

Assaz, uma espada mágica eu tivera
E que em minha mão fora flamejante
Para com vigor e destreza num instante
Vencer-te e domar-te, oh quimera

Ao ver-te assim tão dominado
Oh monstro que impedes-me a sorte
Teu nome não seria mais clamado

Não teria eu limites, sul ou norte
Viveria então meu sonho delicado
De amar sem ter a ti como consorte.

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SONETO DO AMOR SONHADO

Deitado em teu colo nu, submeti-me às carícias
Dos toques delicados que excitaram-me por inteiro
E eu que antes fora lobo, tornei-me então cordeiro
Domesticado sob permitidas e sensuais sevícias

Senti o cheiro de teu sexo como quem tem fome
Agarrado às tuas coxas como um truão desesperado
Beijei teus seios; ávido, lascivo e descontrolado
Lambi-os, suguei-os, mordi-os; murmurei teu nome

Eram meus lábios prisioneiros de tua boca arfante
E na inundada fonte cálida, ansiosa e palpitante
Tocando-te, os secretos teus, busquei - e achei.

Todo trêmulo de desejo, volúpia e sôfrega penúria
Pediste; e escravo, penetrei-te com trôpega luxúria
E jorrou de nós o amor que eu sonhei - e sonhei...

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



LUCIDEZ

Lucidez:
Eis que a procuro
Que desafia-me a razão
Que esgota-me o intelecto
Que leva-me
Aos limites do cérebro
E da consciência...
Que confunde-me a fé
Exacerba-me a emoção
E elimina-me a inocência
E que à sua proximidade
Espanta-me
E excita-me!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



AMORES VIVIDOS

Sofro no presente um amor do passado
Sonho no presente um amor do futuro
Vivo no presente um amor sem futuro
Vivo no presente um amor sem passado

Sofro, sonho e vivo
E intensamente sinto
Todos estes amores...

Que por mais sofridos no passado
Foram sonhos de futuro
E que por mais sonhados no passado
Foram presentes e havidos
Como serão os que presentemente
São sonhados, gozados e sofridos...

Quero-os todos
Plenamente sentidos
Pois afinal,
Todos os amores
Merecem ser vividos!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



MULHER, MARIA, MULHER...

Tu sabes ser brejeira
Ser gentil e graciosa
E encarnas o amor
És enfim, maravilhosa!

És mulher
És maria
Dos campos, dos montes, dos mares...

És mulher
És heroína
Dos sonhos, das lutas, dos lares...

Como todas
As marias
Das graças, das dores, dos lugares...

Como todas
As marias
Do Milton, das flores, dos bares...

Maria, maria, maria,
Dos poetas, dos rudes, dos místicos
Das latas, dos tronos, dos altares...

Como mãe, irmã ou filha
Pecadora, santa, rainha
Companheira, amada minha
Senhora que a vida quer

És jóia rara que brilha
Maria, mulher, maria...
Mulher, maria, mulher!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



FLORES, DORES E AMORES

Há a flor que morre para gerar fruto
E a flor que morre para gerar semente
Mas para cumprir o ciclo natural da vida
Há também a flor que morre simplesmente!

Há a dor que morre para gerar felicidade
E a dor que morre para gerar sabedoria
Mas para cumprir o ciclo natural da vida
Há também a dor que morre de agonia!

Há o amor que morre para gerar saudade
E o amor que morre para gerar solidão
Mas para cumprir o ciclo natural da vida
Há também o amor que morre de paixão!

Há as flores, as dores e os amores
Que morrem e revivem em outra forma
Pois para cumprir o ciclo natural da vida
Tudo no universo renasce e se transforma!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



TENHO QUE AGRADECER

Senhor:
Pelo sabiá que canta melodia divina
Nos galhos de minha jabuticabeira
Acordando-me toda manhã
Tenho que agradecer

Pela terra onde está a jabuticabeira
E a casa onde está o meu lar
E o lar onde está minha família
Tenho que agradecer

Pelo meu despertar saudável e feliz
Com meu corpo perfeito e apto
Para a vivência diária
Tenho que agradecer

Pela bebida que tomo, pelos amigos e o lazer
Pela comida que como e pelo prazer
Pelo conforto que desfruto
Tenho que agradecer

Senhor:
Só não agradeço pelo sangue que estupidamente corre
Pela História, pela Irlanda, pelo Oriente...
Nas cidades, florestas e desertos, em Teu nome
Mas... não é o Teu sangue!

Só não agradeço pela desgraça da ganância
Que gera fome, doença, violência e miséria
Em todos os cantos do mundo
Mas... não é o Teu amor!

Só não agradeço pela depredação, destruição
E envenenamento do planeta
E por suas catastróficas conseqüências
Mas... não é o Teu desejo!

Portanto, eu tenho que agradecer pelo que és
E pedir perdão pelo que não és...

Pela culpa de nossos humanos atos
Por não entendermos também
Que nosso destino é o Bem
A cooperação entre os seres
A harmonia da Vida e a Paz,

Amém!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



A FACE DA VIDA (E DA MORTE)

Vê a terra que me nega
Vê a face que me nega
Vê a terra que me negas
Vê a face que me negas

Nega a face que me beija
Nega a terra que me beija
Nega a face que me legas
Nega a terra que me legas

Face a face com o beijo
Face à terra que me legas
Face a face com a terra
Face à face que me legas

Vê a face que me beija
Vê a terra que me beija
Vê a face que me legas
Vê a terra que me legas

Vê a morte que me legas
Vê a sorte que me beija
Vê a morte que me beija
Vê a sorte que me legas

Beija a fome que me beija
Beija a sorte que me beija
Beija a face que me beija
Beija a morte que me beija

Beija a fome que me espreita
Beija a sorte que me espreita
Beija a face que me espreita
Beija a morte que me espreita

Vê a vida que me negas
Vê a vida que me beija
Vê a vida que me espreita
Vê a vida que me legas...

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



BUSCA E ENCONTRO

Andei
Pelas tortuosas veredas
Da procura

Subi
Nas íngremes montanhas
Da ilusão

Desci
Aos profundos precipícios
Da loucura

Vaguei
Pelos sombrios labirintos
Da paixão!

E achei o Caminho,
Descobrindo a Verdade
Conhecendo a Razão
Encontrando a Vida

Andando sobre as águas...
Escalando corações...
Descendo ao sacrifício...
Iluminando emoções

Espargindo Luz...
Numa cruz!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SER POETA

Ser poeta
É ser muitos
E preservar-se

É dissolver-se
E multiplicar-se

Ser alguém que gostaria
Ser alguém que não gostaria

Estar com alguém bem perto
Mesmo que bem distante
E nunca distante
De quem está perto

Jamais estar só
Mesmo com ninguém por perto

Sentir e sofrer
Mesmo que solitariamente
Ainda que não seja
Sua própria dor

Amar intensamente
Viver sempre um grande amor
Mesmo que virtualmente
Ainda que não seja
Seu próprio amor.

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



RESSURREIÇÃO

Na minha visão de matuto
Que não sei se é certa ou torta
Vejo ressurreição nas verduras
E nos legumes da horta

Na borboleta que voa
Que um dia já foi lagarta
E na fruta saborosa
Que nasceu de uma flor morta

Na nuvem que já foi água
E que será chuva farta
No corpo que será pó
Na árvore que será porta

No mar que antes foi rio
No papel que será carta
No aço que já foi ferro
E hoje é a faca que corta

No passado que foi futuro
No presente, passagem curta
Na alma que já foi homem
No éter que hoje a transporta

No diamante que foi carvão
Na escultura, pedra hirta
No adulto que já foi feto
O ressurgir é que importa

No sorriso que foi espera
No saber que a dor desperta
E na poesia que nasce
Da lágrima que na face aporta

No santo que foi pecador
No milagre que à fé exorta
Vejo ressurreição no amor
Que redime e que conforta!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



JUSTIÇA, DIREITO E LEI (DATA VÊNIA)

Mas afinal...
A Lei não é transitória?
A Lei não evolui de acordo com o progresso social?
A Lei não é mutável pois depende da situação social e cultural de um povo?
E o Direito?
Não é questionável em sua essência, pois visa exatamente a eqüidade (às vezes fora da própria norma escrita), equacionar contendas, ou seja
interpretações divergentes da Lei, em função da Justiça?
"In his quae contra ratiomen juris constituta sunt nom possumus regulam
juris sequi."
Se a Lei existe para garantir o Direito que é sempre questionável, eis que
este varia também de acordo com a evolução e a situação social, por que
são utilizados como referência máxima (fim) para a (não) execução de uma
pretensa Justiça?
A busca da Justiça deveria ser um exercício impreterível e obstinado, eis
que apenas Ela, justificaria a existência do Direito e da Lei.
Quando assim será?
Quando a Lei deixará de ser "Dura lex, sede lex" para uns e "Dura lex,
sede latex" para outros?
Quando deixaremos de pensar que o que é questionável (o Direito) deve ser
considerado um fim, quando na verdade é o caminho importante que utiliza
um instrumento mutável, porém não menos importante (a Lei) para se atingir
o objetivo maior (a Justiça)?
Estamos nos esquecendo que toda luta social do ser humano deve pender para
a busca paladina da Justiça.
Atualmente nós estamos hipócrita e interesseiramente nos atendo à Lei e ao
Direito, arcaicos e opressores, estabelecidos de acordo com nossas
conveniências.
Lei absolutamente ultrapassada e corrompida pelo Tempo, pela História e
pelo Sistema.
Direito absurdamente invertido e fragilizado pelas contingências políticas
e sociais.
"O Tempora! O Mores!"
É necessário e urgente modernizar e democratizar a Lei e o Direito para
que sejam respeitados em sua importância e a soberania da Justiça se
imponha.
A Lei só é justa quando promove a Justiça! "Suspecta malorum beneficia!"
E a Paz é produto da Justiça.
Justiça inquestionável, límpida e pura que só se consegue através do
caminho de um Direito respeitável, com o instrumento de uma Lei justa.
É preciso abrir os olhos...
A Justiça deve ser cega, mas seus elaboradores e aplicadores não!
Antes devem ser laboriosos, competetentes, conscientes e justos.
"Malos tueri haud tutum."
Não só queremos, mas precisamos de Paz.
Pater de coelis - Deus, misere nobis!
EX TOTO CORDE, PAX TECUM!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



VERSOS

Dei-te versos requintados
Cacos das entranhas tirados
Qual letra de um bolero
Ou de um samba-canção

Dei-te versos bem amados
Doces, raros, trabalhados
Sentidos e sem lero-lero
Com as rimas do coração

Dei-te versos encantados
Líricos, claros, rimados
Belos como o amor que quero
Frutos límpidos da emoção

Dei-te versos garimpados
Versos lúdicos, retirados
Do amor intenso e vero
Disposto à tua afeição

Dei-te enfim, versos dados
Com ternura e enamorados...
- Despertar-te assim, espero
Para as graças da paixão!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



LUZES

As luzes da cidade, as luzes deste céu
Trazem-me lembranças tantas, doloridas
Reabrem como algozes, antigas feridas
Enquanto pensativo, fico assim ao léu

Por que aquele amor, doce como o mel
Que enchia minha vida de luzes coloridas
Que enchia minha vida de razões floridas
É hoje recordação amarga como o fel?

Luzes estelares, selênicas, me alegraram
Luzes de artifício, festivas, me encantaram
Iluminando com graça então meu leito...

Tantas luzes, que outrora me inspiraram
Estas que a sonhos e venturas me levaram
Hoje são espadas que se cravam em meu peito!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



ENQUANTO VOCÊ DORME

Anoitece.
Enquanto você dorme, eu sonho...

Perco-me em labirintos de emoções ternas
Observando você neste sono delicado
Sentindo-me como se tivesse fortes asas
Num vôo sobre meandros de ilusões secretas

Enquanto você dorme, eu sonho...

Um perfume me provoca sensações silenciosas
O que exala de seu corpo lânguido e plácido
Em sua face há um sorriso enigmático
Que já não me causa espantos, só graças

Enquanto você dorme, eu sonho...

Excitam-me os pés com vaidades femininas
Suas pernas torneadas, os quadris sensuais
Os cabelos, a boca, os seios e o ventre
Onde penso flamejarem chamas sagradas

Enquanto você dorme, eu sonho...

Transborda em mim um amor de outras calendas
Em meu sonho há uma resistência aos pudores
Aflora uma essência abundante e tradutora
De feéricas energias temperadas e cósmicas

Enquanto você dorme, eu sonho...

Com o desvendar de segredos em ações crédulas
Com delitos, gemidos, sussurros e gozos
Com a sinergia singular que verte e envolve
Dos afagos, dos beijos e do sexo; as respostas

Enquanto você dorme, eu sonho...

Amanhece.
Enquanto você desperta, já não sonho...
Fitando seus olhos, eu tudo vivo...
E agora sim, eu realmente sonho!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



O RIO

Lá vem o rio...

Este
Que foi nascente
Que foi córrego
Que foi arroio
Que foi ribeirão
Que foi riacho
Que foi rio

Lá vem o rio...

Traz
Coisas dos homens
Coisas dos bichos
Coisas das plantas
Coisas das terras
Coisas das águas
Coisas das coisas

Lá vem o rio...

Cheio
De muitos amores
De muitos rancores
De muitas horrores
De muitas glórias
De muitas histórias
De muitas memórias

Lá vem o rio...
No mesmo lugar!

E lá vai o rio...
Virar mar!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



NOSTALGIA

Carrego em silêncio, o peso
De tristes alvoradas solitárias
Das despedidas indesejadas
Com sabor de desespero

Pesa-me também o segredo
Da tradução substanciosa
Dos aromas desabrochados
Por fecundos recônditos

Levavam-me estes aos troféus
De tantos gozos esplêndidos
De tantos ápices inebriantes
Com jeito de morte eminente...

Careço de um amor renovado
Daquele sentimento original
Que me desperte urgentemente
Desta emocional letargia

Desejo penetrações e toques
Não mais sensações brandas
Desejo prazeres vibrantes
Com real presença de vida

Não quero mais despedidas
Nem solidão agonizante
Nem saudades delirantes
Não quero mais nostalgia!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



NADA

- O que há contigo?
- Nada...
- O que há comigo?
- Nada...

- O que há contigo?
- Nada?
- O que há comigo?
- Nada?

- O que há contigo?
- Nada... nada... nada.
- O que há comigo?
- Nada... nada... nada.

- O que há contigo?
- Nada!
- O que há comigo?
- Nada!

O que há conosco???
Agora, mais nada!!!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



SONETO PARA ANA CAROLINA

(Pelos seus quinze anos - Do seu tio que muito a ama: José Antônio Gama de Souza-Balzac)

A mulher de teu futuro, agora desponta!
Há ilusões e sonhos, sim! Mas que importa?
Se deles nasce a confiança que conforta...
E deles nasce a esperança, que mais conta.

És obra que a sábia mão de Deus apronta,
Botão em flor colocado à nossa porta...
Beleza pura que a nossa visão recorta,
No cenário esplêndido que ora a vida monta!

O sonhar é soberano, como também livre...
E sonharás como mulher e ainda criança,
Pois a infância não morre; sobrevive.

Em tua alma, guardarás viva lembrança...
E apagarás estrelas do amanhã que vive,
Nas realizações que hoje a tua fé alcança!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)



RESPOSTA (EU QUERIA)

Eu queria sim, estar contigo
Não apenas com algumas palavras...
Quando um novo ano chega
Como sempre, sem licença.

Eu queria me fazer presente
- Não como simples lembrança -
Para confirmar e reacender
Como sempre, a tua crença.

Eu queria mudar tua visão
Desesperada, ávida e confusa
Da esperança no amor que é
Como sempre; a diferença!

Eu queria poder admirar
Teu corpo (imaginado), em repouso...
Calmo, lânguido, espectador
E transformar a agonia em recompensa.

Eu queria curar-te com a poesia
Viajar contigo, sem destino
Com a fome dos corpos abrasados
Guardada na bagagem, intensa!

Eu queria muito então ousar
Mas para mim, não te entregas...
E a magia que minha alma canta
É doce, mas é dor imensa...

Eu queria mesmo me atrever
Enfeitiçá-la, revolver teu ventre
Estremecer tuas coxas, captar teu gozo
Mexer contigo, mais que tua alma pensa!

(José Antônio Gama de Souza-Balzac)